domingo, 11 de junho de 2017

Ninguém foge do seu destino!


Ninguém foge do seu destino!
FlávioMPinto
Ciro Magno fazia uma longa caminhada entre o escritório e a garagem onde deixava o carro, diariamente. Era sua rotina ao chegar e deixar o trabalho.
O início de outono em Porto Alegre mostrava serem dias extremamente agradáveis, alegres, frescos e ensolarados, em nada lembrando outros anos em que o frio já apresentava, no seu primeiro dia, o seu cartão de visitas gelado antecipando o inverno.
Seus funcionários o aconselhavam , seguidamente, a deixar o carro no prédio ao lado da empresa. Seria muito mais prático, seguro e tranqüilo, mas recebiam a resposta de que sentia confiante , seguro no trajeto e precisava fazer exercícios. Não dava bola.
Não se considerava idoso apesar de seus quase 60 anos bem vividos. Já conseguira tudo que almejava na sua profissão de administrador de empresas. Sua firma gerenciava condomínios e lojas na Grande Porto Alegre, tudo funcionando ás mil maravilhas sob a batuta de Ciro Magno.
Naquela bela dia de outono porto-alegrense, decidiu ir trabalhar pela manhã contrariando seu expediente e rotina normal, que é na parte da tarde.
Algo o empurrou para fora da cama e foi.
Próximo da hora do almoço foi caminhar no calçadão mais movimentado da cidade. Bem próximo da esquina Democrática foi ultrapassado por um trio de jovens bem alegres: duas moças e um rapaz. Ficou muito impressionado por uma das garotas que trajava um vestido bem justo, tubinho preto, curtinho até o meio das coxas , mostrando sua musculatura bem torneada a cada passo . Seu cabelo bem pretinho mostrava um corte a la Channel com uma franjinha muito sedutora.
Seguiu-os até o Rua da Praia Shopping e depois os perdeu de vista.” Mas que coisa linda”, “É o meu número exato”, pensava Ciro com medo de que alguém adivinhasse seus pensamentos. Enquanto caminhava a moça não saía de seus pensamentos.
O tempo vai passando e Ciro volta diversas vezes ao itinerário para ver se encontrava a moça, mas nada.
Chega o verão e parte da empresa se desloca para o litoral para gerenciar os condomínios e lojas.
Ciro decide ir para Capão da Canoa e lá se estabelece num pequeno apartamento com todo conforto que tem direito.
“ Agora é levantar cedo, curtir o sol da manhã, e nada mais” pensava.
Já no primeiro dia a praia lhe esperava de braços abertos, pois o mar estava calmo, morno, claro, limpo e sem aquele irritante vento derrubando guarda-sóis a toda hora e jogando areia para todo lado.
Mas era bem cedo, temperatura ótima, sol suave, ninguém ainda na praia, nem os guarda-vidas haviam se apresentado nas guaritas nem os pescadores madrugadores. Bem diferente daquelas águas marrons espumantes e geladas e vento “nordestão” a salpicar a pele dos banhistas com areia.
Estica-se numa cadeira e adormece. Nem notou que chegara alguém bem ao seu lado e deixara uma cadeira, um guarda-sol, uma toalha esticada na areia e uma bolsa. As marcas na areia apontam para a água.
Pouco depois acorda sobressaltado com uma visão esplendorosa: saía da água uma “deusa das águas”, uma bela moça com um biquíni azul clarinho todo transparente e vem bem na sua direção. Será a dona do material que fora colocado bem ao seu lado enquanto dormia? pensa Ciro.
Era uma morena clara com seu cabelo preto curtinho todo penteado para trás e um corpo escultural. Uma imagem surreal e bela. Inacreditável!
Estavam sós bem perto da guarita 49-B. Ninguém á vista.
Ainda surpreso, se dirige á moça.
- Moça, seu namorado, companheiro, marido ou coisa que o valha, lhe deixa sair assim na praia?
- Sabia que perguntarias por isso. Mas fique tranqüilo que é só secar e volta á cor normal,disse a moça tranquilamente, mas com tom firme e decidido.
“ Puxa, essa moça sequer me conhece e se dirige a mim dessa forma?”
Ciro fez um verdadeiro escaneamento do corpo escultural que estava á sua frente e ficaram por alguns minutos estudando um ao outro sem palavras quaisquer enquanto a moça se secava e se esticava na espreguiçadeira.
Quebrado o gelo, conversaram sobre inúmeros assuntos. Amenidades, o tempo, a praia, a cidade, os veraneios que passavam ali.....bons de conversa, numa empatia surpreendente, não viram o tempo passar.
- Então, quer dizer, estás sozinho aqui na praia?
- Sim, responde Ciro.
- Então me farás companhia num jantar hoje á noite. Topas? Que tal?
- De muito bom grado aceito. Mas onde te encontro?
- Sabes onde fica o Jasmin?
- Sim, o apartamento onde estou fica ao lado!
- Pois bem. Oito e meia em ponto, está bem? Não se atrase, sou pontual, hein!?!?
- Antes, sou meio mal educado: mas como é teu nome? Eu sou Ciro Magno, administrador de empresas, sou de Porto Alegre.
- E eu sou Vani Magdalena, também sou administradora de empresas e também de Porto Alegre. Mas que coincidência?
E se despediram com um forte aperto de mão com um caloroso “Até mais”.
Ficaram quase quatro horas conversando e o tempo ainda parecia curto para aqueles recém apresentados, tantos foram os pontos em comum através do papo interessante e desapegado de interesses.
A tarde fora de inquietação para Ciro, e também para Vani, pois nunca haviam encontrado alguém que tão facilmente puxaram conversa e essa fluiu magistralmente bem por todos os campos numa convergência de pontos inacreditáveis. A noite prometia muitas surpresas.
Na praia, a noite se apresenta mais fresquinha, mas continuava com céu limpo e agradável como durante o dia, substituindo o sol forte pela luminosidade das estrelas e da Lua.
Na hora e local marcados, Ciro tem mais uma surpresa: via na sua frente, ao vivo e a cores, a jovem que o impressionara na Rua da Praia, tempos atrás e que perdera de vista.
“ O que Deus está querendo comigo?” pensava Ciro.” “Não acredito no que estou vendo”  ao mirar a jovem com o mesmo vestido e penteado que o impressionaram.
E já chegou falando.
- Não adianta me olhar desse jeito. Não uso jóias e não sou nem um pouco vaidosa. Sou eu mesmo. Só uso essa pequena correntinha que minha mãe me deu e relógio para não perder as horas nos compromissos. Está bem?
- Concordo em gênero, número e grau.
Entraram.
Vani continuava a impressionar Ciro por seus posicionamentos claros e honestos nas mais diversas áreas. Era jovem, tinha 25 nos, perdera a mãe logo que se formara em administração de empresas e teve de assumir a firma. Colocaria em prática, com sucesso, tudo que aprendera na faculdade. Diziam que ela tinha um talento especial para lidar com pessoas.
Ciro já estava começando a ficar “encucado” com essa moça e foi buscar no seu passado um caso que tivera na fronteira com uma porto-alegrense, também chamada Vani. Fora levar sua irmã para compras em Livramento-Rivera e tivera um tórrido romance com uma bela administradora de empresas durante 5 dias. Depois nunca mais a vira. A memória lhe trouxe lembranças que achava que estavam desaparecidas. Aqueles momentos voltaram bem vivos.
“ Não é possível o que está me acontecendo”, pensava Ciro.” Será o Benedito?”
Sua cabeça girava enquanto Vani contava sua vida e ele estava a pouco mais de 20 anos atrás catando momentos. E as coincidências continuaram na escolha do prato, na apreciação das músicas ambientais e na bebida.
Quando ela disse que sua bebida favorita era o vinho e possuía uma razoável adega, Ciro pensou-“ Fechou tudo! O que essa garota quer de mim?Alguém me explique o que está acontecendo!” Era incrível.
A noite passou rápida assim como o dia. Pareciam amigos de longa data.
-Sexta tenho de voltar a Porto Alegre para fazer uns exames de rotina. Colesterol, triglicerídeos, etc... essas coisas.
- Eu também, falou Vani. Vou no Laboratório Union, lá na subida da Petrópolis...
- Puxa, esse também é o laboratório que vou, diz Ciro e ficaram rindo de mais uma coincidência.
Antes, Vani já havia dito que seu nome fora dado por sua mãe para que encontrasse o pai no futuro.
Já em Porto Alegre, fazem a coleta de sangue e uma semana depois Ciro é chamado com urgência no laboratório.
-“ Sr Ciro, houve um assalto aqui no dia seguinte ao seu exame, na semana passada, após vocês terem coletado o material. Os ladrões bagunçaram tudo e só não entraram no laboratório onde estão as provas dos exames, as coletas” falou o diretor da clínica com tom muito sério. “ Eu o chamei aqui porque esses casos são sempre tratados com o mais absoluto sigilo que a situação exige, pois não sabemos os interesses que estão por trás disso....”
-“Mas , doutor, o meu caso não é de sigilo e sim de um exame de rotina de colesterol, triglicerídeos, plaquetas..não estou lhe entendendo.”
- “ Na bagunça que foi feita, documentos foram trocados e acabamos de fazer um exame de paternidade no seu caso e da Sra Vani Magdalena. E o erro é de aproximadamente 0,1%! Ela é provavelmente sua filha.” Fala o médico num tom grave ante um Ciro atônito.
Prosseguindo, o médico ainda afirma-“ Agora temos o resultado definitivo da análise: se foi uma troca, ela realmente ocorreu, paciência, assumimos o erro, mas a análise é definitiva, pois os exames naqueles materiais foram corretos! Vocês estavam na hora errada no lugar errado”.
-“Não, não estávamos”, falou Ciro relembrando que havia lhe passado nos últimas semanas após conhecer Vani. Um breve filme lhe passou pela memória esclarecendo tudo.
O destino havia pregado uma peça no pacato administrador de empresas. Como bom espírita, sabia que nada era por acaso e começou a entender a situação quando viu Vani, pela ampla janela envidraçada do consultório, entrar na clínica.
Mesmo ainda não sabendo de nada, Vani lhe dá um caloroso abraço que diz o que Ciro estava imaginando.
-“ Você é minha filha, Vani!”
- “ Eu já sabia, pai. Desde o primeiro momento que conversamos presenti o desejo da minha mãe. Desde o início acreditei que nada vem por acaso e não me decepcionaste nem na fé espírita”.
O médico se desculpou pelo erro, mas os cumprimentou pelo encontro.
Despediram-se e saíram da clínica.
- “ Vamos aproveitar e ir até uma igreja rezar por tua mãe”.
- “ Sim , ela deve estar bem feliz, onde quer que esteja!”.
-“ Vamos aproveitar esse tempo de calmaria e voltar a Capão neste fim de semana?”
- “ Sim, pai. Aproveitando, joguei fora aquele biquíni. Comprei-o na Europa na última vez que lá estive e só usei aquela vez quando te conheci.”
- “ Decisão sensata, filha”
Porto Alegre- Maio 2017