terça-feira, 22 de junho de 2010

Dbcksabdkaj de Doblenalda

FlavioMPinto

Doblenalda andava indignada: fora admoestada pelo chefe da repartição por usar a Internet em horário de expediente.
Não admitia isso. Sempre fora dedicada ao trabalho, ao partido, jamais furou greve, muito pelo contrário, as incentivava, mesmo no serviço. Não havia como duvidar de sua dedicação , lealdade e desempenho na defesa das causas partidárias, colocadas acima de tudo. O partido e o serviço eram sua vida. Nessa ordem.
Não admitia, portanto, pois usava a Internet para comunicar-se com outras camaradas, como bem afirmou quando inquirida. O chefe não quis entender e a advertiu por peculato culposo. - Ora essa, eu acusada de peculato? Onde já se viu? Nem que a vaca tussa, mas ideologicamente acato. Foi o que postou na última e derradeira entrada no MSN ao seu grupo , já de uma lan house perto de sua casa. Não merecia a admoestação.
Ideologia estava acima de tudo para Doble, como era conhecida. O seu passatempo é criticar quem critica o governo do seu partido. Não lhes dá tréguas. Independente do que escrevem, os rotula de capitalistas, mentirosos, reacionários, fascistas neoliberais, demagogos, burgueses, golpistas, capitalistas. São seus argumentos favoritos, para não dizer os únicos. Na realidade não tem outros. Não interessa o assunto e os rotula sem piedade.
Acabando o expediente, foi para casa onde seu grande amor, Tarso Lênin, seu companheiro 25 anos mais velho que ela, um carcamano comunista dos quatro costados e seu guru, a esperava.
- Querida, hoje vamos tomar um bom trago.
- Mas, Carlos Lênin, ainda é cedo!
- Não, minha cara. Descobri que a governadora vai pagar, mais uma vez, o 13º em dia e já gastei por conta: comprei 10 garrafas de rum socialista no Mercado.
- Mas sou funcionária federal, Carlos Lênin!
- Não importa, vamos lá comemorar, pois no próximo governo não sei se vamos ter essa baba.
Carlos Lênin vivia com Doble desde a década passada. Não trabalhava e vivia da ideologia marxista. Era ideólogo de vários grupos. Consolava a parceira na sua balzaquianice e só não se conformava de ela não o apresentar a seus amigos nem o levava nas reuniões sociais. Faz parte da esquerda escocesa e sempre fora considerado o vagabundo da turma: o mais atrasado nos estudos, porém contestador.
Entre doses de rum devaniavam, mas Doble é uma mal amada enrustida; quer o que Carlos não pode lhe dar. Desconta no prazer em servir o partido.
Essa é a vida da Doblenalda.